Mentes Inquietas

Uma resenha do livro da autora Ana Beatriz Barbosa Silva, que trata entre outros aspectos a hiperatividade – condição “sine qua non” para pessoas TDA. Pessoas com um funcionamento mental acelerado, que vivem “a mil” como se estivessem “plugadas na tomada” e portanto cheios de energia e entusiasmo, que estão sempre em busca de algo novo e estimulante – um cérebro turbinado que não para nunca.

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.” (Oscar Wilde)

Pessoas hiperativas “adoram viver”, e carregam em suas mentes verdadeiros tesouros, pois quando toda a energia é canalizada surge um enorme potencial criativo advindo do seu talento essencial de gerir um fluxo de idéias massivo que eclode em sua mente, e de sua capacidade concentração intensa em um assunto o que estimula a capacidade cognitiva.

Podemos observar,  a hiperatividade através de alguns sintomas:

Emoção em excesso e escassez de razão;
Têm um profundo amor à vida, passam a maior parte de seu tempo buscando emoções, aventuras, projetos, amores, tudo para viver mais intensamente. É na busca dessa vida dentro da vida que está o impulso mais forte de todo hiperativo, para eles tudo é MUITO;

– São impacientes, sacodem incessantemente as pernas, rabiscam com constância papéis, roem unhas, mordem tampas de canetas, estão sempre buscando algo para manter as mãos e pés ocupadas. Para um hiperativo até mesmo uma escada rolante pode se tornar um sinônimo de tortura, pois ao invés de usá-la como uma maximizadora de velocidade impulsionando seus passos, “sofre” tendo que esperar numa fila preguiçosa – dado que as pessoas na frente a utilizam para descanso. A impaciência traz a “ansiedade” no ato de esperar, odeiam esperar;

– Interrompem a fala do outro (falam sem parar), e algumas vezes mudam de assunto rapidamente;

Fazem várias coisas ao mesmo tempo, possuem muita energia – perfil igual a um vulcão fora de atividade, por fora muitas vezes parecem calmos e tranquilos,  mas, por dentro, mantém-se agitados e inquietos;

– Odeiam a burocracia;

– Assumem situações de alto risco, em busca de estímulos fortes;

– Podem ser atrapalhados, tropeçam, derrubam objetos. Isso pode potencializar com a falta de clareza, que através da rapidez de seus pensamentos o impede de falar o que é fundamental para se fazer compreender, pois os pensamentos se sucedem a uma velocidade tão expressiva que acaba por esquecer o que realmente deveria ser dito.

– Tem caligrafia ruim (difícil entendimento), pois escrevem rápido;

Instabilidade de atenção, aqui o significado de TDA – “transtorno de déficit de atenção”. Dado que pequenos estímulos podem desviar sua concentração (como uma mente escorregadia), a distração é um fator fácil de ocorrer devido a esta  instabilidade de atenção, que é provocada por um cérebro envolto em uma tempestade de pensamentos incessantes, o que dificulta a canalização e desvia seus pensamentos rapidamente. Interessante mencionar que hoje em dia não se acredita que exista uma pessoa totalmente “normal”, pelo menos do ponto de vista do funcionamento cerebral, pois possivelmente não existe um cérebro perfeito!

– Dotados de alto nível de energia e entusiasmo;

– Gostam de orientações curtas e claras;

– Tendência a serem muito criativos e intuitivos, com ótima inventividade na forma de resolução de problemas;

O que dizer sobre a genialidade inquestionável de Mozart, Beethoven, Henry Ford, Leonardo da Vinci, Graham Bell, Ayrton Senna, Einstein e muitos outros que apresentavam um funcionamento hiperativo. Neste território tão empírico, uma coisa é certa: o funcionamento cerebral TDA favorece o exercício da atividade humana mais transcendente que existe – a criatividade.

Se entendermos criatividade como a capacidade individual de ver os mais diversos aspectos da vida através de um novo prisma e então dar forma e corpo a novas idéias, notaremos que a mente em meio a uma confusão resultante a um bombardeio de pensamentos, é capaz de entender o mundo sob ângulos habitualmente não explorados.

– A impulsividade vem como fator positivo aqui, pois sem o impulso, uma idéia não poderia se corporificar em uma ação criativa. As pequenas coisas são capazes de despertar grandes emoções, e a força dessas emoções gera o combustível aditivado de suas ações. O mundo para um hiperativo é instigante e interessante o tempo todo.

Porque, de tão interessante que é a todos os momentos / A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger“. (Fernando Pessoa)

Um ótimo exemplo foi o caso de Beethoven, que mesmo surdo conseguiu compor obras geniais sem nunca escutá-las, eram idéias que brotavam de sua mente irrequieta, imune de sua surdez.

– Presença do hiperfoco, concentração intensa em um único assunto num determinado período quando lhe interessa. A partir de uma idéia criativa, tem uma capacidade fantástica de se hiperconcentrar nas idéias ou ações investindo muito tempo através do estimulo passional, e conseguindo a realização de um processo inovador – a obra criativa, a materialização da idéia inicial.

Me chamou a atenção o fato de que Mozart aos 17 anos, já era dono de 22 composições sacras, 21 sonfonias, 6 quartetos, 18 sonatas para violino, além de serenatas, danças e inúmeras peças. Era ou não alguém hiperativo e com hiperfoco?

Canalizando a energia e os sonhos

Estamos testemunhando mudanças significativas no mercado de trabalho, podemos destacar as expectativas lançadas sobre o papel do novo trabalhador. Vivemos em uma era de transição de uma economia de produção para uma economia de serviços.

Isso significa que o número de trabalhadores intelectuais, que prestam serviços, vem superando, a cada momento, o número de trabalhadores do setor industrial e agrícola, responsáveis pela mecanização e trabalho braçal.

Para esta camada, o poder reside no saber e principalmente no conhecimento adquirido pela superação das dificuldades enfrentadas no cotidiano, que faz de um homem simples um grande sábio. Os postos de trabalho agora exigem que as pessoas pensem, criem, se inspirem, se emocionam, raciocinem, opinem, discordem, se apaixonem, detestem, enfim, que tenham um trabalho verdadeiramente humano, que só pode ser concebido pelos que possuem mentes e corações, cognições e sentimentos.

Esse trabalho não precisará de mão-de-obra, mas sim de mãos talentosas, integradas em um ser humano completo e único, que poderá ver significado em seu trabalho e crescer com ele.

Caro leitor, se você leu o artigo e se identificou com alguma das características citadas acima, não estranhe – absolutamente normal. De alguma forma, todos nós temos estes sintomas em maior ou menor escala em nossas vidas. Muitos tem a hiperatividade, que transformam suas vidas em coragem de errar e na perseverança de continuar tentando, pessoas que persistem como numa curiosidade infantil mas com a paixão de um adolescente.

“Vem, vamos embora, que esperar não é saber; quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. (Geraldo Vandré)

O mais importante para uma mente inquieta é saber canalizar toda a sua energia e hiperfoco em resultados inesperados e consistentes na busca dos seus sonhos, seja no trabalho ou vida pessoal.

Espero que tenham gostado, e por favor – deixe seu comentário com críticas, elogios ou sugestões.

Obrigado, Marlon

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17 respostas a Mentes Inquietas

  1. samara diz:

    Olá Marlon, Parabés pelo artigo!

    Li esse livro alguns anos atrás e vi que você soube valorizar o que ele traz de melhor, gostei muito da leitura e principalmente da abordagem que você trouxe ao texto com um jeito objetivo e focado. Creio que um mente inquieta não deve deixar de ser pelo fato de ser diferente ou possuir algumas características em excesso (não sei se isso é possível), mas sim canalizar esses pontos de forma positiva e otimista.

    Vou indicá-lo alguns amigos TDAs que tenho rsrs.
    Keep going like this!
    Até o próximo texto.

  2. Paulo Cesar Silva de Oliveira diz:

    Show de bola Marlon!!!
    Com certeza para você não foi difícil escrever sobre este assunto. rsrs

  3. Samantha diz:

    Caro Autor,

    É muito bom saber que não estou só. Ser hiperativo é ser difrenciado.
    A nossa leitura do mundo é dinâmica e rápida. Não me vejo de outra maneira.
    Ótima resenha. Há 4 anos li este livro; no começo fiquei assustada, depois frustrada e hoje sei que sou diferenciada. Paulo Freire cita: “É preciso LER a realidade e ESCREVER a própria hitória”. O hiper dá conta: tranquilamente.
    Sou professora e particularmente achei sua forma de escrita muito boa; indicarei esse blog aos meus alunos.

    Att.
    Samantha

  4. wagner diz:

    oi marlon sou um dos TDA’s que a Samara indicou rs.
    Muito bom o texto parabens.
    Abç.

  5. Aulenir lopes diz:

    Eu só agora estou percebendo que sou inquieta, as pessoas estão me cobrando para que eu pare um pouco, eu faço uma coisa, faço outra e outra ao mesmo tempo, as vezes eu paro e penso porque faço isso? eu não tinha resposta, agora sei que sou TDA. meu marido briga comigo porque eu não paro as pernas quando vou deitar to sempre batendo os pés na cama mexendo as pernas. sou muito inquieta, tenho 56 anos, tenho muita saude e muita disposição. gostaria de ler o livro. obrigada pela explicação, muito boa e gostei dos depoimentos, sei que não estou sozinha. Sou de Porto Velho-RO.

    • Marlon diz:

      Fiquei muito feliz com o seu comentário, espero realmente que tenha ajudado rs. Cuidado com o livro, boa parte dele trata este assunto como uma doença rs, eu acho que tem muita coisa positiva – basta canalizarmos as energias em algo que resultados excelentes virão. Abs

  6. rafael diz:

    eu temia que fosse algo ruim, pelo que lí outrora. mais depois deste conteúdo, percebo o quanto minha mente é valiosa. o que preciso fazer é administrar minha ideias. Me vejo diferente, não gosto de esperar que os outros façam, eu vou e faço!

  7. MÁRCIA diz:

    Andei pesquisando sobre meu comportamento e quando li o que vc escreveu… cara, eu tenho tudo, mas tudo mesmo que vc descreveu. Até filme, não consigo assistir numa mesma posição. mudo tanto de posição que já me flagrei até de cabeça pra baixo no sofá, e olhe que sou mulher e tenho 28 anos. Falo rapidamente, até embola as palavras. Não consigo ficar sem mexer minhas mãos, seja mexendo em uma parte do meu corpo e sempre tenho um pedaço de papel para rabiscar. Já bati o carro várias vezes por distração, a última porque fui olhar uma nova construção e o carro subiu a calçada. Derrubo muito as coisas e vez por outra tenho manchas roxas de pancadas que levo, principalmente pelas quinas da mesa. Isso não é bom, você sabe como posso melhorar? tipo, um tratamento médico. Devo ir a um psiquiatra para tomar algum remédio? O bom disso é que realmente tenho fácil percepção para algumas coisas. As pessoas dizem que sou muito inteligente e ativa, mas como sou agitada me chamam de doida, rs.

    • Marlon diz:

      Olá Marcia, obrigado pela mensagem. Talvez você não tenha nenhum problema, talvez seja sua fortaleza.
      Se isso te gera muita “dor de cabeça”, vale sim pedir ajuda, infelizmente não sou especialista rs
      Sou apenas mais um do grupo! 🙂

  8. Gleidson Almeida diz:

    É Marlon, muito bom seu artigo…. Hoje tenho 33 anos e acabo de receber o diagnóstico que sou Tdah. Interessante, nasci de 6 meses e pouco e sempre parecia que eu era ligado num fio de alta tensão. Me encaixo em quase todas as etapas que você cita. Muito esclarecedor seu artigo, parabéns. Estou fazendo a leitura do livro, espero encontrar algumas respostas.

  9. Vanderson diz:

    Excelente texto, já li vários sobre TDAH mas a maioria sempre comete certos erros, porque é quase impossível entender a mente de um TDA sem possuir a mente de um, finalmente encontrei um artigo mais próximo da minha realidade, me ajudou a pensar em algumas coisas, valeu mesmo.

  10. Dalzenir diz:

    Me emocionei ao ler. Me vejo nessas palavras.Sempre falo pras pessoas isso ,pois eh o que sinto. Pena que não sou compreendida por familiares e pessoas próximas.

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